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     ÁGUA: O DESAFIO DO SÉCULO 21
     

ÁGUA, A MERCADORIA MAIS PRECIOSA DO SÉCULO 21
Fonte: Jornal, O Estado de S. Paulo - 27/08/2001 - Timothy Egan (NYT)

 
 

Quem vive na exuberante área verde de South Elgin, no subúrbio de Chicago, notou que alguma coisa não vai bem este ano. A água que manteve até hoje um pequeno bolsão de vida - castores, ratos almiscarados, sapos e taboas - desapareceu, e a terra à volta parece ressecada apesar da primavera chuvosa.

É muito estranho ver um charco seco em um lugarejo que tem, todos os anos, tanta chuva quanto Seattle, dentro de uma região onde as inundações são um fato da vida e a umidade do verão faz você sentir que está dentro de uma sauna. Mas isto pode antecipar algo mais grave, segundo um estudo que deixou atônita a população da região metropolitana de Chicago.

Os seis municípios que margeiam uma das maiores reservas de água doce do mundo, o Lago Michigan, podem estar sujeitas à severa falta de água dentro de 20 anos, segundo um relatório da comissão regional de planejamento. O relatório, divulgado em junho, surpreendeu a população próxima ao sistema de lagos que contém um quinto da água doce de superfície do mundo, mas não foi surpresa para a meia dúzia de corporações que vêm dizendo que a água será para este século o que o petróleo foi para o século passado.

Mercadoria - Este ano, com a falta de água em lugares que nunca tiveram dúvidas quanto ao seu suprimento, boa parte do país descobriu que a água pode ser uma mercadoria mais preciosa que o petróleo.

Cidades estão negociando acordos para trazer água de lugares distantes, rotas de aqüedutos estão sendo redefinidas e diversas espécies de seres vivos postas em risco por planos de exploração ou transposição de rios subterrâneos ou de superfície.

O aquecimento global, que diminui a absorção da água das chuvas pelo solo que normalmente alimenta os vastos lençóis subterrâneos do país, a crescente demanda pela agricultura e pelas cidades em expansão são os motivos mais citados para explicar a acelerada escassez de água.

Os reservatórios subterrâneos e de superfície da Flórida estão quase esgotados e transformando-se em água salobra com a infiltração da água salgada. A falta de água é tão grave que em muitas cidades desse Estado, apesar das recentes tempestades tropicais, pessoas têm sido levadas aos tribunais e multadas por violarem rigorosas metas de racionamento de água.

No Kentucky, mais da metade dos 120 municípios do Estado estiveram, este ano, com falta de água ou próximos à escassez, até que fortes chuvas trouxessem algum alívio. No Noroeste do país, onde a água é o arquiteto-mestre de uma terra luxuriante, muito pouca água tem servido a muita gente, deixando áreas agrícolas e vida selvagem fenecerem em lugares como Methow Valley, em Washington, ou Klamath Falls, em Oregon - precursores de batalhas por água que ocorrerão no futuro próximo, segundo especialistas.

Um relatório divulgado em 9 de agosto revela que até mesmo em Seattle, ao lado das úmidas montanhas Cascade, a demanda por água está superando a oferta, trazendo a perspectiva de escassez dentro de 20 anos.

Algumas das maiores cidades do Sudoeste, como El Paso, San Antonio e Albuquerque, poderão ficar sem água dentro de 10 a 20 anos. Mas cidades da Nova Inglaterra e da metade bem-abastecida do Meio-Oeste também podem ficar sem água daqui a uma geração.

Prejuízos - Nos Grandes Lagos, o quarto ano consecutivo de declínio nos níveis de água causou prejuízos de milhões de dólares para empresas de navegação, marinas e outros negócios, além de provocar restrições a futuras retiradas de água para os bairros em expansão.

"Muita gente não acredita que possamos ter falta de água vivendo tão perto dos Grandes Lagos", disse Sarah Neremberg, engenheira especializada em água e membro da Comissão de Planejamento do Nordeste de Illinois, que conduziu os estudos sobre a falta de água.

O governo federal, que controla a água para 31 milhões de pessoas no Oeste mas tem muito pouco controle no resto do país, tem oferecido pouca orientação. Na ausência de um intermediador forte, prevalece a situação de cada um por si, em que empresas privadas, Estados e cidades fazem seus próprios contratos.

No nordeste do Kansas, por exemplo, a escassez é tão grave que as autoridades estaduais estão analisando a construção de um aqüeduto, de mais US$ 200 milhões, para trazer água do Rio Missouri, na tentativa de impedir que a área seque totalmente. Mas a maior parte da água do Missouri já é usada, estabelecendo um conflito que é endêmico no Oeste americano.

Alguns dos grandes rios que alimentaram as comunidades americanas, desde o Ipswich, em Massachusetts, ao Rio Grande, no sudoeste, estão secando. O Rio Grande, que teve seu nível rebaixado por agricultores e cidades de rápido crescimento no Novo México e no Texas, está reduzido a um mero fio d'água quando serpenteia através do Parque Nacional Big Bend no Texas. Está tão poluído por produtos químicos e sal que os peixes, pássaros e animais que fazem uso dele estão morrendo, testemunham os guardas florestais do parque.

O problema nos subúrbios de Chicago é típico dos apuros que outras áreas tradicionalmente alagadas enfrentam. A água parece abundante, por exemplo, no condado Kane que fica entre o maior rio da nação, o Mississipi, e o maior lago, o Michigan. Mas as aparências enganam.

Aqüíferos - Grande parte da água doce do país - cerca de 60% - está fora da vista. Ela vem do subsolo, de rios e lagos naturais conhecidos como aqüíferos. Esses aqüíferos estão sendo exauridos ao mesmo tempo em que a água superficial de lagos e rios é reduzida pela crescente demanda e pelo calor.

Muitos dos maiores aqüíferos do país, tais como o Ogallala, com 450 mil quilômetros quadrados ao sul de Plains, há muito foram depauperados pela atividade agrícola. Para leste, o rio subterrâneo que leva água para as plantações de arroz mais abundantes do país, em Arkansas, estará seco em menos de 15 anos, dizem os hidrologistas.

O aquecimento global, que tem sido apontado como o responsável pelo aumento nos índices de evaporação da água superficial e baixo nível de neve nas montanhas que alimentam rios maiores como o Colorado e o Colúmbia, é citado por muitos cientistas como o maior culpado individual pela presente escassez de água.

Em dezembro último, pesquisadores do governo federal disseram que o clima gradativamente mais quente poderia reduzir os níveis dos Grandes Lagos em 1,5 metro ao final do século, mas observaram, também, que os níveis do lago variam ao longo do ano independentemente das condições climáticas. Um acordo restritivo, assinado pelos governadores de todos os Estados que rodeiam os Grandes Lagos e mais duas províncias canadenses, tornou praticamente impossível para qualquer nova comunidade estabelecer-se e consumir a água desta enorme bacia de água doce.

Crescimento - O crescimento desordenado tem sua parcela de culpa, também. Na região de Chicago, os hidrologistas dizem que a terra normalmente encharcada de água e que reabasteceria os aqüíferos foi pavimentada, bloqueando a água necessária para realimentar as bacias subterrâneas.

Em períodos passados de escassez, as pessoas recorreram à agua do Lago Michigan. Quando Chicago estava se desenvolvendo, reverteu o fluxo do Rio Chicago, drenando água para fora do Lago Michigan. Agora as cidades que circundam Chicago, nas quais se espera um aumento populacional de 1,3 milhão nos próximos 13 anos, descobriram que o acesso ao lago está proibido e que os depósitos do subsolo não estão sendo adequadamente reabastecidos.

Foi a perspectiva dessa crescente carência nacional de água, junto ao problema global em que bilhões de pessoas não têm acesso a água potável, que levou a Enron, o conglomerado de energia com sede em Houston, a entrar no negócio de água.

Em muitas lojas a água engarrafada já custa mais que a gasolina, mas quase 90% dos sistemas municipais de distribuição de água são de propriedade pública. A Enron, a número 1 em gás natural e eletricidade, viu a água como uma mercadoria de primeira necessidade que eventualmente seria desregulamentada, exatamente como ocorreu com a energia elétrica na Califórnia. Se isso acontecesse, então, a Enron estaria livre para comprar e vender água a quem pagasse mais - nada diferente de petróleo e megawatts.

A empresa criou um site na Web para comercializar água e foi prospectar o mercado para o líquido precioso. A Enron seguiu o caminho já aberto pelo empreendedor de petróleo T. Boone Pickens, que vem comprando água subterrânea de agricultores na esperança de vendê-la a cidades com falta de água no Texas, e pelos irmãos Bass, que compraram 19 mil hectares no deserto da Califórnia e acabaram enredados em problemas jurídicos e técnicos referentes aos direitos sobre a água subterrânea.

Escassez - "Nos próximos dez anos, os Estados Unidos vão passar por uma grave escassez de água", disse Rebecca Mark, diretora-executiva da divisão de água da Enron, a Azurix, aos líderes do negócio no Texas, há dois anos quando desenhou as linhas gerais de uma indústria global que vale cerca de US$ 400 bilhões.

Ao mesmo tempo, um outro executivo da Enron, Roger Fragua, disse a um subcomitê do Congresso que "da mesma forma como a Enron liderou a evolução da reestruturação do gás natural e da eletricidade, estamos estimulados a assumir um papel semelhante na indústria da água".

Mas a Enron descobriu que não é tão fácil se apropriar da água como é do petróleo e do gás. Órgãos públicos e entidades de consumidores, muitos deles críticos do papel que a Enron representou na debacle da desregulamentação da energia na Califórnia, combateram a empresa e outros que pressionam pela privatização.

Este ano, depois de dois anos procurando por água, a divisão independente de água da Enron entrou em colapso, registrando prejuízos de mais de US$ 300 milhões e retirando-se do mercado de ações. Um porta-voz da empresa, Keith Miceli, disse que a Enron está "decepcionada porque o mercado global de água não se abriu para nós".

Outras empresas, a maioria delas sediada na Europa, tiveram mais sucesso: "Ainda acho que estamos nos encaminhando para a privatização, mas a água é diferente do petróleo - existe todo um fator emocional", disse Deborah Coy, especialista em mercado de recursos hídricos da Schwab Capital Markets. "Veja o que está acontecendo, há escassez em todas as partes do mundo."

Pickens planeja bombear água do Ogallala e canalizá-la para cidades do Texas. No sul da Califórnia, uma empresa privada, a Cadiz, está negociando com o órgão público que fornece água para 17 milhões de pessoas o armazenamento da água do Rio Colorado em um aqüífero no deserto Mojave para depois vendê-la de volta nos anos secos.

O plano teve a aprovação do conselho do Departamento Metropolitano de Água que, desde o início do século 20, tem drenado a água superficial e subterrânea por toda a Califórnia, sem atentar para a distância. Mas os ambientalistas se opõem, com o argumento de que isso poderá secar nascentes vitais para a sobrevivência dos carneiros selvagens e das tartarugas do deserto no Mojave.

"As áreas urbanas vão ter a água de que precisam", disse Thomas J. Graff, especialista em recursos hídricos da Environmental Defense (Proteção Ambiental). "A verdadeira batalha está nas margens - a luta entre o meio ambiente e a agricultura."

Empregos - A agricultura utiliza a maior parte da água americana. Em uma época em que a maior parte das fazendas é subsidiada pelo governo - porque não consegue fazer dinheiro num mercado globalizado - muitos especialistas dizem que é inevitável que a água para atender às necessidades futuras terá de ser tirada da agricultura. A mesma quantidade de água necessária para manter apenas dez empregos na agricultura pode manter 100 mil empregos no setor de alta tecnologia, disse Peter Gleick, um especialista em recursos hídricos que trabalha para a entidade sem fins lucrativos Pacific Institute, de Oakland, Califórnia.

Alguns temem que a luta pela água resulte em um mero jogo de números, envolvendo transferências maciças de um grupo para outro e, em última análise, ao abandono da vida selvagem das terras alagadas e dos rios.

"Em alguns lugares da América do Norte já temos índices de extinção de espécies da água doce que rivalizam com os índices dos trópicos", disse Sandra Postel, autora de dois livros sobre água e diretora do Global Water Policy Project (Projeto para uma Política Global para a Água), em Amherst, Massachusetts.

"O que me preocupa é que começaremos a pensar na água para beber como algo que vem somente de uma garrafa", disse Postel. "Não estamos falando sobre uma coisa como petróleo ou tubulações e transferências; estamos falando de um bem comum, uma coisa que mantém tudo vivo."

Nos bairros afastados, onde se assiste ao avanço dos novos empreendimentos imobiliários, moradores de longa data disseram ter compreendido o valor da água somente quando ela se foi.

"Estamos estarrecidos com o que aconteceu nesta primavera", disse Sue Schudel, que mora em South Elgin há 45 anos. "As taboas estavam todas mortas. O reservatório totalmente seco. Nunca havíamos visto o lago assim."

 

 

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