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           Opinião & Realidade


O RISCO DA DISSOLUÇÃO DA ENGENHARIA NACIONAL

                                                              OU

           UM GENOMA PARA A ENGENHARIA NACIONAL

Geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos

A privatização de empresas públicas nacionais nas áreas de energia, telecomunicações, transportes e infraestrutura em geral trouxe, certamente como conseqüências não programadas deliberadamente, a dissolução de equipes técnicas de altíssima capacitação e experiência, constituídas nestas empresas, ao longo de décadas, no âmbito da implantação de obras e instalações da mais alta complexidade tecnológica, assim como uma  temerária fragilização  de toda uma cadeia empresarial privada implicada na produção de estudos e projetos e na implantação dos empreendimentos então demandados pelas estatais, como também no fornecimento de equipamentos e componentes.

Essas equipes técnicas das antigas estatais nacionais, com o entusiasmado e estratégico apoio de instituições públicas de pesquisa tecnológica do País, foram responsáveis por dominar, desenvolver e/ou induzir o desenvolvimento de uma Engenharia Nacional aplicada às características econômicas, sociais e fisiográficas próprias de nosso país e de suas diferentes regiões,  guindando-a, reconhecidamente,  ao nível da melhor Engenharia do primeiro mundo. 

Sintonicamente, as várias empresas privadas brasileiras de  consultoria e projetos em Engenharia e de implantação de empreendimentos, que se formaram especialmente para o atendimento das demandas públicas em grandes obras, instalações e gerenciamento operacional, constituíram suas próprias equipes técnicas, respondendo ao mesmo patamar de qualidade.

Hoje, uma pequeníssima parte das antigas equipes técnicas das estatais foi aproveitada pelos grupos privados internacionais, via de regra vencedores das licitações de privatização.

Uma outra parte se diluiu em tristes passamentos, aposentadorias com mudanças de ocupação profissional e em serviços autônomos de consultoria.

Quanto às empresas brasileiras privadas de consultoria e projetos, já anteriormente abaladas pela contínua redução dos investimentos públicos, e agora preteridas em favor de empresas de engenharia dos países de origem dos grupos multinacionais vencedores das licitações de privatização, muitas acabaram por se extinguir, outras desmobilizaram suas equipes permanentes optando por apenas constituir grupos transitórios para  atendimento de escassos projetos específicos em campos técnicos limitados.

O mesmo fenômeno já atinge as grandes e médias empreiteiras nacionais de obras e instalações, e acabará atingindo, brevemente, sem dúvida, os fornecedores nacionais de componentes, gerados e/ou estimulados pelas demandas de nossas antigas estatais.

Esse processo de desnacionalização e dissolução da engenharia nacional é tão mais grave quando, adicionalmente, consideramos que toda a fantástica memória tecnológica acumulada após décadas de investimentos públicos em formação de recursos humanos e produção de conhecimentos não foi  providencialmente e organizadamente sistematizada e documentada de forma a não se perder e estar plenamente à disposição da sociedade brasileira; transcendendo os pesados e reservados relatórios empresariais e dispersos “papers” de congressos, para integrar definitivamente nossos currículos escolares e, com capital importância, constituir-se em suporte e referencial técnico ao exercício do Poder Regulador nas suas relações com as concessionárias privadas de serviços públicos.

As conseqüências negativas desse fenômeno são graves e podem ser facilmente imaginadas, seja no âmbito social, econômico ou até no âmbito da segurança nacional (perda de “intelligentsia”).

Sem dúvida há já substância vital perdida irreparavelmente. Mas há muito a se preservar e muito a fazer para estancar ou, ao mínimo, reduzir os efeitos de tão danoso processo.

Destacaríamos duas providências imediatas indispensáveis: 1) em não se desistindo de futuras privatizações, ao menos tomar as providências licitatórias necessárias à preservação viva da memória tecnológica e da cadeia institucional pública/privada nacional de suporte; 2) uma mudança radical na postura doutrinária das Agências de Regulação, preocupando-se mais com a viablilização de espaços para a Engenharia Nacional e menos em oferecer todas as regalias possíveis aos grupos internacionais vencedores ou participantes dos processos de privatização.

Uma outra providência, e de implementação mais desembaraçada, se destaca como urgente, estratégica e condicional para qualquer outra medida que se pretenda implementar, qual seja, aproveitando-se instituições públicas e privadas participantes de todo esse processo e profissionais  autônomos remanescentes desta época, recuperar, sistematizar e documentar o que de essencial há da memória tecnológica produzida nestas últimas quatro décadas pelas equipes técnicas das antigas estatais e das instituições públicas que as coadjuvaram, das empresas brasileiras privadas de  consultoria e projeto e das empreiteiras de obras e instalações diversas.

Essa providência tem as dimensões de um Projeto Estratégico Emergencial, vital, sob todos os ângulos, para o presente e o futuro de nosso Estado e de nosso País.

Poderia, sem dúvida, ser considerado o “Genoma” da Engenharia Nacional, e, mais uma vez, Agências Públicas de Fomento e instituições ligadas ao setor empresarial nacional implicado, ao patrociná-lo e supervisioná-lo, estariam prestando histórico serviço à sociedade  brasileira.

santosalvaro@uol.com.br


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