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Opinião & Realidade
 

A NECESSIDADE DAS ESCOLAS DE GEOLOGIA ASSUMIREM COMO ATRIBUIÇÃO E RESPONSABILIDADE SUA O ENSINO E O DESENVOLVIMENTO DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA BRASILEIRA

 Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos


INTRODUÇÃO

Tem esse documento o objetivo de expor a estratégica importância dos Cursos de Geologia no Brasil assumirem como responsabilidade intrínseca sua o ensino e o desenvolvimento técnico-científico da Geologia de Engenharia. 

A GEOLOGIA DE ENGENHARIA NO CONTEXTO DA GEOLOGIA E DA ENGENHARIA

A Geologia de Engenharia é uma Geociência Aplicada, da mesma dimensão técnico-científica da Geologia Econômica.

Como uma Geociência Aplicada, a GE somente logrará êxito em seus objetivos caso solidamente assentada sobre os paradigmas e referências da Geologia. Desta maneira, o raciocínio geológico sempre será a ferramenta básica para o exercício da GE.

Pode-se afirmar que a Geologia de Engenharia está para a Engenharia Geotécnica como a Geologia Econômica está para a Engenharia de Minas. 

POSICIONAMENTO DISCIPLINAR DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA (SIMPLIFICADO)

 ASPECTOS CONCEITUAIS BÁSICOS DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA
A Geologia de Engenharia tem como missão básica diagnosticar, compreender e descrever a natureza geológica dos terrenos a serem afetados por um determinado empreendimento humano, identificando as características de seus diferentes materiais e a dinâmica de seus processos geológicos naturais. Em um segundo passo, a GE, conhecedora das solicitações que o empreendimento submeterá o meio físico natural, prognostica os fenômenos que serão decorrentes dessa interação, de tal modo a, juntamente com a Engenharia, encontrar e conceber as mais corretas formas de combinar harmônica e exitosamente as operações de engenharia e a natureza geológica dos terrenos envolvidos.

Tem assim a Geologia de Engenharia uma abordagem essencialmente fenomenológica, que somente poderá ser cumprida a partir dos instrumentos básicos de uma sólida formação em Geologia.

A IAEG - International Association of Engineering Geology tem a seguinte definição estatutária para a Geologia de Engenharia: “Geologia de Engenharia é a ciência dedicada à investigação, estudo e solução dos problemas de engenharia e meio ambiente decorrentes da interação entre as obras e atividades do Homem e o meio físico geológico, assim como ao prognóstico e ao desenvolvimento de medidas preventivas ou reparadoras de riscos geológicos”.

De uma forma mais concisa poderíamos entender a Geologia de Engenharia como a “Geociência Aplicada responsável pelo domínio tecnológico da interface entre a atividade humana e o meio físico geológico”. 

O PAPEL HISTÓRICO DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA NO MUNDO ATUAL
Os esforços mundiais voltados a propiciar que todos os seres humanos tenham uma vida materialmente digna exigirá, sem dúvida, a multiplicação de empreendimentos humanos no planeta: energia, mineração, transportes, indústrias, cidades, agricultura, disposição de resíduos...

A Geologia de Engenharia é um dos ramos tecnológicos sobre os quais recai a enorme responsabilidade de tornar esse propósito tecnicamente possível, sem que a própria possibilidade da vida humana no planeta seja comprometida.

A GEOLOGIA DE ENGENHARIA NO BRASIL
A definitiva introdução e o desenvolvimento da GE no Brasil deram-se especialmente a partir do final da década de 50, como conseqüência do surto de construção de grandes obras de infra-estrutura no país. A partir de meados dos anos 70, a Geologia de Engenharia brasileira, já considerada destacadamente em todo o mundo por sua alta qualidade, amplia consideravelmente seu campo de ação objetivando o diagnóstico e a solução dos graves problemas de ordem ambiental que atingem o país. Com isso assumindo suas fundamentais e insubstituíveis responsabilidades no suporte técnico-científico aos preceitos conceituais do desenvolvimento sustentado, qual seja o desenvolvimento provedor de qualidade de vida no planeta para essa e para as gerações futuras.

Também a partir de meados dos anos 70, promovido por diversos geólogos de engenharia, há o início de um movimento de resgate da GE para os paradigmas e métodos de trabalho da Geologia. Esse movimento alcança sucesso, mas ainda limitadamente, pois que falta a essa postura profissional uma correspondente base curricular.

Hoje uma boa parte dos geólogos brasileiros dedica sua atenção profissional ao campo da Geologia de Engenharia e do Meio Ambiente, no entanto pode-se afirmar que esta prática funda-se quase sempre em um esforço pessoal de autodidatismo. 

O ENSINO DA GEOLOGIA DE ENGENHARIA
A Geologia de Engenharia foi introduzida no Brasil pela mão da Engenharia, não havendo na época nenhuma preocupação maior com essa disciplina nos cursos brasileiros de Geologia. Essa condição fez com que a fase inicial da GE brasileira fosse marcada sensivelmente pelos paradigmas da Engenharia Geotécnica, especialmente de suas derivações disciplinares, a Mecânica dos Solos e a Mecânica das Rochas.

De outra sorte, as escolas brasileiras de Geologia têm até hoje revelado uma certa relutância em entender a Geologia de Engenharia como uma atribuição própria do campo da Geologia, pelo que o ensino e o desenvolvimento técnico-científico dessa geociência aplicada não têm sido olhado como uma atividade de importância estratégica, sendo quase sempre relegado à condição de disciplina opcional ou de responsabilidade de Escolas de Engenharia. Mesmo nas escolas de Geologia onde a GE é ministrada como disciplina curricular oficial, é comum verificar-se que seu conteúdo privilegia o ensino da Mecânica dos Solos e da Mecânica das Rochas, ou seja, não trabalha com o entendimento da GE como uma Geociência Aplicada que deva ser intrinsecamente inserida e apoiada nos paradigmas conceituais e metodológicos da Geologia. 

CONCLUSÃO
Do que foi exposto depreende-se a necessidade estratégica das escolas brasileiras de Geologia assumirem definitivamente como atribuição e responsabilidade suas a formação disciplinar em Geologia de Engenharia dos estudantes de geologia, entendida a GE, em toda suas essência, como uma Geociência Aplicada.

Essa necessidade se reveste hoje de adicional importância tendo em conta a dissolução quase que por completo das diversas equipes de Geologia de Engenharia que marcavam o cenário da Geotecnia brasileira até o início da década de noventa do séc. XX, como conseqüência do processo de privatização de várias empresas estatais que as mantinham e do recolhimento funcional de diversas instituições da administração pública. Ou seja, mais do que nunca coloca-se a importância das escolas de Geologia assumirem como responsabilidade sua o ensino e o desenvolvimento técnico-científico da GE brasileira, transformando-se em centros de uma fértil discussão e divulgação social dessa geociência aplicada. Corolariamente, mostrar-se-ia extremamente oportuna e benéfica a constituição, nas escolas de Geologia, de Departamentos de Geologia de Engenharia (que envolveriam em suas atribuições também a questão ambiental).

Em resumo, os motivos para tanto poderiam então ser assim sistematizados:

  • consolidação e visualização do resgate da GE das limitadas mãos disciplinares da Engenharia Geotécnica para a base científica e metodológica da Geologia;
  • proporcionar aos estudantes de graduação e pós-graduação a adequada e necessária formação e em GE para um competente e criativo exercício profissional dessa geociência aplicada; abraçar um ramo de aplicação da Geologia responsável pelo emprego de grande parte dos geólogos brasileiros; levar as escolas de Geologia a se constituir em "centros de pensamento" e referência da GE brasileira; levar aos já geólogos já formados a possibilidade de cursos de especialização e atualização em GE. levar à sociedade, através da voz abalizada da Universidade, informações e ponderações essenciais a um correto entendimento e manejo do meio físico geológico pelas mais diversas atividades humanas de uso e ocupação do solo brasileiro

Em anexo o artigo “GEOLOGIA DE ENGENHARIA: A GEOCIÊNCIA APLICADA QUE VÊ O HOMEM ENQUANTO AGENTE GEOLÓGICO”

       Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos

       Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia 

       Foi Diretor Geral do DCET - Deptº de C&T da Secretaria de C&T do Est. de São Paulo

       Autor dos livros  “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática” e “A 
       Grande Barreira da Serra do Mar” "Cubatão"

       Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente

         Criador da técnica Cal-Jet de proteção de solos contra a erosão

       E-mail: santosalvaro@uol.com.br

 
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