Brasil - Geologia, Recursos Minerais, Hídricos e Mineração

 
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            Recursos Hídricos

  MAIS GRAVE QUE FALTAR ÁGUA  

                       Edézio Teixeira de Carvalho

Geocentelhas 099

Integra a legislação de recursos hídricos a seguinte premissa: "A água é um recurso limitado e vulnerável". Do ponto de vista geológico é lamentável equívoco, porque a substância, pelo menos, nada tem de limitada e muito menos de vulnerável. Já o recurso, é ilimitado porque todo dia o sol dessaliniza milhões de toneladas de água do mar e as despeja generosamente sobre a terra. Vulnerável? Também não: a água em si sai limpa e fresca de todas as enrascadas em que é metida, desde que o sistema geológico de que faz parte seja bem tratado.

Aterrorizante esta premissa equivocada, infelizmente de consensual aceitação, quando o que, de fato, limitado e vulnerável é o recurso terra nas características que dele precisamos para a sobrevivência e desenvolvimento. O modelo antropomórfico do sistema geológico ajuda na explicação do que digo. Nele a terra é assimilada ao corpo humano e a água ao sangue. O médico, só na diálise, extrai o sangue para tratá-lo à parte e devolvê-lo ao corpo, operação que o metabolismo natural é incapaz de executar. No mais, ele trata sangue e corpo ao mesmo tempo. É o corpo que hospeda o sangue e se o corpo é ferido, o sangue flui e perde-se. A terra armazena e purifica a água, quando pode.

Vejamos conseqüências desastrosas daquela visão autônoma da água. Profunda erosão foi rasgada na terra (uma voçoroca, por exemplo). A mais tardia manifestação desta degradação é o surgimento de uma nascente. Um corte no corpo põe o sangue a escoar para fora dele. Como a analogia não é perfeita, se o corpo é sadio, o sangue coagula e a ferida fecha. Se o corte é profundo e não houver socorro, o corpo morre. A terra fica no meio termo: nunca o corte é bastante pequeno para que o fluxo estanque por si, nem bastante grande para drenar e levar à morte a terra. A nascente fica por ali, sugando-a. Com o tempo, passa a ser vista como natural. Aí vem a lei dos homens, incansável no revogar as da natureza, e determina que o terreno em volta da nascente é área de proteção ambiental. Daí não podermos soterrá-la. Então, a pretexto de proteger a nascente, não podemos reabilitar a terra, o que requer o soterramento da nascente e seu deslocamento para jusante, onde esteve antes da erosão! Perde a nascente a oportunidade de ter seu abastecimento reforçado com a terra usada para soterrá-la. Dezenas de milhares de voçorocas existem em Minas Gerais, "protegidas" contra a reabilitação sob as determinações da lei! Nas cidades, que não estão sob o império do Código Florestal, a inspiração dele emanada ainda impede a intervenção corretiva, mas a situação vai virando lentamente, porque o bom senso começa a prevalecer.

Inspirados na lei, em restrições técnico-econômicas discutíveis, e na falta de zelo ambiental, construtores de vias férreas e rodovias colocam grande parte de seus bota-foras em posições absurdas, perdendo a oportunidade de compensar em parte o impacto das obras, fazendo que esses bota-foras entrem em processo erosivo ou requeiram, tão mal dispostos, gastos de controle elevados, e que deixem de funcionar como boas esponjas absorventes de água. Rejeitos não perigosos e estéreis inertes da mineração também costumam ser mal dispostos pelas razões acima. Em áreas rurais de declividade acentuada ainda são visíveis sulcos de arados mecânicos encosta abaixo, promovendo erosão.

A terra, como hospedaria da água, está acabando, porque o solo superficial está sendo erodido à razão de mais de 1 bilhão de toneladas por ano, levando com ele 10 a 20% de capacidade de armazenamento, no compartimento que seria a ante-sala da hospedaria, aquele onde os hóspedes se reúnem antes de entrar nela. O recurso água é oferecido todo dia à terra, mas ela não está preparada para armazená-lo, e, não obstante toda a preocupação com a água, poucos estão de fato preocupados com isto.

 Belo Horizonte, 28/03/00

Publicado no Jornal Estado de Minas - edição de 14/04/2000.

Autor: Edézio Teixeira de Carvalho
Ex-Diretor do Instituto de Geociências da UFMG.
Autor do livro Geologia urbana para todos – Uma visão de Belo Horizonte

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