Brasil - Geologia, Recursos Minerais, Hídricos e Mineração

 
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ÁGUA, DESAFIO DA GESTÃO 

                       Edézio Teixeira de Carvalho

Geocentelhas 100

As atribuições da gestão oscilam entre dois extremos: Quase tudo a cargo do Estado nos países de economia planificada e quase toda a atividade econômica com o setor privado nos países de economia de mercado, ficando a cargo do Estado apenas aquelas atribuições que mesmo os liberais mais ferrenhos admitem não serem privatizáveis. Por razões diversas os modelos mais próximos desses limites fracassaram, embora um deles ostente os emblemas de um êxito ilimitado. Pois o que mais lhe caracteriza o fracasso é precisamente aquilo em que muitos vêm o êxito - o domínio incontestável do mundo. Ora, se dominaram o mundo, e isto não contesto, por que anda o mundo assim tão mal? Onde está portanto o êxito?

Os americaníssimos Amory B. Lovins, L. Hunter Lovins e Paul Hawkens, em seu recente livro "Natural capitalism" (1.999) questionam severamente as bases do capitalismo atual, e não se limitam em sua crítica à claríssima (dado à economia um mínimo de comprometimento ecológico) inconsistência econômica a longo prazo do modelo triunfante, que só não enxergam seus iluminados mentores e o ignorante bobo-alegre. Estendem-se eles por aspectos morais e éticos, por eles formulados ou reproduzidos de autores citados. Há citações como esta, referindo-se a educador americano, especializado em educação de meninos de rua: "Como é que poderemos pensar em ensinar álgebra a alunos que não querem estar aqui?", e grifam o aqui não como a escola, mas o próprio mundo. Tão despojados de bens materiais, sociais e humanos chegam eles a ela, que buscam um termo expondo-se a riscos de toda ordem (sexo, drogas, assaltos, lutas). Uma das marcas no entendimento dos autores mais destrutivas do capitalismo atual é sua obsessiva busca da produtividade do trabalho em oposição à absoluta falta de esforço em relação à produtividade dos recursos naturais, onde assinalam desperdícios absurdos. Tudo isto, ainda eles, gera desemprego e dilapida os recursos da terra.

Dizem, em perfeita identidade com o que já afirmei, que é impossível desrespeitar a terra sem fazê-lo ao homem e vice-versa.

Nascemos e crescemos vendo a natureza como um todo, até chegarmos à escola, onde ela começa a ser analisada e passamos inicialmente a vê-la por três janelas. Essas janelas, na universidade são dezenas, e nenhum de nós freqüenta todas elas. Mais, afastamo-nos da natureza para podermos dela fazer um objeto manipulável. Mais tarde, cada um em sua profissão é incapaz de compor uma síntese coerente, porque só aprendeu a analisar, mas cada um de nós tem de operar sobre ela, com ou sem síntese. Como no fazer a análise aprendemos a nos deliciar com as excelências de nosso ferramental analítico, acabamos por supor que nossas ferramentas de análise são mais importantes que nosso objeto, e aí começa a farra da terra. Inventaram então as abordagens multidisciplinares. Estas, se proporcionam pelo menos uma visão mais equilibrada das relevâncias relativas, nunca conseguem conduzir a uma síntese coerente, porque aí entram as relevâncias relativas do poder de decisão e sobre o objeto em tese bem analisado acaba por ser promovida uma operação incompatível com suas características constitutivas e comportamentais.

As visibilidades são distintas para os que observam de janelas diferentes. Da janela geológica, não vejo a água como recurso finito e vulnerável. A finitude da água é quase uma impossibilidade física. Toda a água, que não conseguimos ou não quisemos reter no solo através da manutenção de uma cobertura vegetal competente e de uma infinidade de recursos proporcionados pela geologia, volta à terra graças ao sol, pela evaporação dos mares, que são, para as dimensões das necessidades humanas, infinitos. O problema a resolver é a reabilitação da terra, quer em sua capacidade de armazenamento, quer no pleno aproveitamento dessa capacidade, hoje muito baixo devido ao generalizado bloqueio à infiltração.

O maior desafio da gestão em relação à água é a remoção da absoluta indisposição de reintegrá-la à terra, desafio que até hoje não foi enfrentado como deve ser por nenhuma nação moderna, capitalista ou de outra conformação estamental.

Belo Horizonte, 30/03/00

Artigo publicado no Jornal Estado de Minas; Opinião, p. 9; 03/05/00.

Autor: Edézio Teixeira de Carvalho
Ex-Diretor do Instituto de Geociências da UFMG.
Autor do livro Geologia urbana para todos – Uma visão de Belo Horizonte

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